O dia seguinte...Sempre que se viam as reações de Alexandre no dia seguinte era uma incógnita para Carla. Parecia ficar estranho, um tanto distante e pensativo. Alexandre sentia-se culpado por causa de sua família e temia que sua aproximação de Carla o fizesse rejeitar aquela que era a mãe de sua filha. A princípio Carla não compreendia muito bem suas reações, apesar de sentir todo seu amor, até que finalmente passasse a entender suas atitudes e aceitar, e não mais tentar atravessar esta muralha que existia entre eles. Alexandre parecia tão competente aos seus olhos, impressionante de tantas maneiras. Um homem com controle total de todos os aspectos de sua vida. A atenção considerável que ele lhe dedicou, a maravilhosa educação que teve quando se conheceram, fez-a sentir uma espécie de adoração por ele. Ficara fascinada com sua inteligência, impressionada com sua cultura e conceitos. Alexandre fora sutilmente sedutor para lhe dizer todas as coisas certas e extremamente gentis. Carla sempre teve muita atitude, determinada, de iniciativa própria, gostava de provocar e usava seu poder de sedução para isso. Mas também possuía uma doçura básica, uma simplicidade e delicadeza que abrira brevemente o coração de Alexandre. As horas que passavam conversando apresentavam-lhes um mundo mais vasto e mais rico. Nas semanas que se seguiam, a paixão deles foi se tornando mais profunda. Falavam com freqüência ao telefone em longas conversas no coração da noite e Carla lhe escrevia longas cartas filosóficas, que nunca foram enviadas. Os momentos que dividiam, transcendiam a realidade do dia-a-dia, tudo quando os afligiam pareciam desaparecer no ar quando se falavam. Era como flutuar para fora da vida que levavam e mergulhar em lugares e assuntos dos quais gostavam. Alexandre lhe trazia uma nova visão do mundo..."Adoro ouvir você meu amor, passaria horas ao seu lado ouvindo-o..." Alexandre falava mansa e calmamente. Conversavam com naturalidade e riam juntos. Às vezes ele falava de sua vida, das pessoas que conhecia, de amigos de quem gostava e, de vez em quando, meio sem querer falava da esposa e da filha. Ele era casado há oito anos e não se sentia realizado. Sua esposa parecia não se interessar muito pelas coisas que o agradava. Embora Alexandre nunca houver reclamado, ou falado em tom de insatisfação, Carla percebia que a vida de marasmo que ela insistia em levar, estava sendo insuportável para ele. Ela levava uma vida cômoda e de seu ponto de vista normal e satisfatória. Ele seguia a sua, sem alimentar rancor ou esperanças de melhora. Havia desistido após vários insucessos em suas tentativas. Tinha em comum a preocupação com a filha, que Alexandre colocava acima de tudo aquilo que era importante para ele. Carla sabia o suficiente para entender se tratar de um casamento fadado ao fracasso, mesmo assim não alimentava esperanças de um dia ficarem juntos. Mas, não esperava que se separassem tão cedo. O efeito do dia seguinte, após uma segunda vez, fora o indício do que estava prestes a acontecer. Carla experimentaria o triste sabor da separação, via seus sonhos se desfazerem e seus olhos ensaiavam lágrimas.


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